Acabei de ler – de um fôlego só – o interessante livro do meu companheiro da Juventude da Causa Monárquica dos anos sessenta do século passado, João Amaral “ O roubo do príncipe – Salazar e o casamento do Duque de Bragança”. Trabalho muito bem elaborado, fruto de uma investigação aprofundada, com notas que ajudam a leitura, sobretudo dos menos familiarizados com figuras e actividades do movimento monárquico do séc. XX, vem contribuir abundantemente para fazer luz sobre as relações dos monárquicos com Salazar e deste com a monarquia e com os monárquicos, ajudando a dissipar as dúvidas, que curiosamente ainda persistem em alguns, de que o Presidente do Conselho da II República nunca pensou em restaurar a monarquia, sobretudo depois da morte, em 1932, de D. Manuel II porque isso não lhe interessava para o seu projecto de poder pessoal (“…mas a monarquia não é um regime, é apenas uma instituição. Como tal, pode coexistir com os regimes mais diversos e de muito diferentes estruturas e ideologias. E, sendo assim, ela não pode ser por si só a garantia da estabilidade de um regime determinado…Concluo como quem aconselha: estudemos tudo, mas não nos dividamos em nada” –Salazar, discurso no III Congresso da União Nacional, 22 de Novembro de 1951).
Como já reconheceu Dom Duarte Pio, o ditador não gostava de Dom Duarte Nuno. João Amaral, sendo algo severo na apreciação do Duque de Bragança, acaba por explicar um motivo: Dom Duarte Nuno, embora reconhecendo os méritos da obra de recuperação nacional, depois da balbúrdia da I República, além de ser anglófilo durante a II Grande Guerra, não acatava as “ordens” de Salazar com submissão, como ele gostaria, em episódios ligados ao seu casamento e presença no Brasil e como se veria mais tarde quando o Presidente do Conselho o aconselhou a não vir viver para Portugal, após a revogação da lei do banimento e a Família Real resolveu instalar-se no País. E, como revela uma outra obra de 1992, “ D. Duarte Nuno de Bragança um Rei que não reinou”, pela Proclamação ao Povo Português, de 1959, de que certamente teve conhecimento, que o Duque de Bragança foi impedido de assinar,” face a ameaças que junto dele foram veiculadas pelo seu indigitado Lugar-Tenente, General Bénard Guedes”, homem da confiança de Salazar, em que o Estado Novo, embora de forma subtil, era posto em causa e se colocava e à monarquia que representava, acima do regime. Um documento notável.
Salazar, na leitura de João Amaral “ apropriou-se do Príncipe”, ao ter patrocinado o casamento no Brasil, a pedido do Lugar-Tenente João de Azevedo Coutinho e de outros influentes monárquicos, entre os quais o seu tio João do Amaral, que se revela mais salazarista que monárquico. Como se apropriou até ao fim da maioria dos monárquicos que esperavam que Salazar restaurasse a monarquia, apesar de todos os sinais em contrário que foi dando ao longo dos anos e que só não viu quem não quis. Salazar mereceu bem o epíteto de “Manholas”. Ele sabia muito bem que “com papas e bolos se enganam os tolos”.
João Matos e Silva
(Actualmente é Presidente da RAL)

